Família: O Meu Demónio Pessoal

Para todos os que me conhecem mas não muito a fundo, se alguma vez se interrogaram por que sou tão calado, por que parece que mantenho todos a uma distância confortável, por que consigo ser às vezes frio e distante, e não baixo a minha guarda para deixar as pessoas conhecer-me melhor, apresento-vos a minha resposta: a minha família.

Tenham em conta neste texto estou apenas a soltar a minha raiva e frustração, ou parte dela. Vou estar a expor certos detalhes da minha vida e, se, por acaso, ferir os sentimentos de alguém, primeiro de tudo, lamento, segundo, quero lá saber. Estou a fazer isto por mim, portanto doa a quem doer, só desta vez, estou-me marimbando para o mundo. Como muitos poucos de vocês sabem, nos últimos dois meses tenho visto um psicólogo, desde os meus 11 anos que acho que deveria de ter tido algum tipo de acompanhamento psicológico, especialmente, pois, a morte do meu avô foi algo que me marcou por muito tempo, mas houve sempre uma razão ou outra para não o fazer; não queria parecer fraco, não queria ser um fardo para os meus pais, não queria fazê-los gastar mais dinheiro, não tinha tempo, etc. Agora que trabalho e que ganho o meu dinheiro não tenho desculpa para não pedir ajuda, e foi exactamente isso que fiz. E como seria de esperar, grande parte do texto é motivado pelos desenvolvimentos que tenho feito nas sessões de terapia, já que estas obrigam-me a relembrar e reviver momentos menos… felizes da minha vida.

Família: conjunto de pessoas com relação de parentesco que vivem juntas. 

Há quem defina família como a felicidade da sua vida, o que lhes dá motivação em viver, por outro lado, há para quem família seja nada mais senão a sua fonte de sofrimento, a razão por que odeiam o mundo, e acima de tudo por que odeiam a vida.

Isto deve ser chocante caso um familiar meu tropeçar neste tecto, mas toda a minha vida fui sujeito a abusos por parte do meu pai. Não quero fazer parecer que eu fui espancado até me partirem os ossos, que fui abusado sexualmente ou vítima de negligência (quer dizer, fui, mas, pelo menos, não no sentido convencional), mas houve violência, sim. Violência emocional, manipulação afectiva, repressão por via autoritária e mais que tudo o esmagamento do meu ser. O meu pai não é dos piores estupores que existem por aí, isto é, em comparação com muitos outros estupores de pior estirpe, mas a área onde ele é mais bem-sucedido é realmente a rebaixar-nos e fazer-nos sentir que somos baratas ao lado dele. “Nós”, como quem diz, eu e a minha mãe. Em casa, o meu pai era rei e senhor. Ninguém podia contrariá-lo, ninguém podia dizer que não, o meu pai tinha sempre de ter a última palavra, por mais equivocado que estivesse tinha sempre de ter razão e aí daquele que o questionasse! A fachada dele sempre me confundiu, sempre me fez tamanha impressão em saber como ele era opressor ao ponto de nos esmagar em casa, mas fora dela era uma pessoa completamente diferente. Era uma pessoa amiga, amistosa, sempre bem disposto e pronto para dar dois dedos de conversa. “Porquê? Porque esta falsidade? Que tem ele a esconder?” – questionava-me eu. Era esta a máscara que ele punha, era esta a persona dele. E desde muito cedo que também me habituei a pôr máscaras para me esconder, para me proteger, para me adaptar e sobreviver. Acho bastante irónico quando o meu pai me advertem com frases tipo:”Não foi assim que te eduquei” ou “Eu não te ensinei assim”. Hehe… É irónico porque, desnecessário será dizer, a única coisa que o meu pai me ensinou foi a ter medo.

Ele e a minha mãe… Não sei o que ele viu na minha mãe. Não quero com isto parecer que estou a insultá-la, mas não percebo o que um homem manipulador como o meu pai viu na minha mãe; uma “presa” fácil, alguém que não lhe iria dar muito trabalho, alguém subserviente que lhe daria prole? Não sei. Mas não consigo evitar sentir pena da minha mãe. Por mais que ela também tenha alguma culpa, não consigo de deixar de ter pena dela. Eu vivo com ele há 27 anos, até à data, ela conhece-o há mais tempo. Ela foi “moldada” por ele durante estes anos todos. Ele transformou-a, humilhou-a e esmagou-a, tal como esmagou a mim, durante este tempo todo. De certa maneira, e em termos muito abrangentes, vejo-a mais como uma vitima de Síndrome de Estocolmo que outra coisa.

Vocês sabem qual é a vossa memória mais antiga? É uma recordação alegre? Pois, querem saber qual é a minha, ou, pelo menos, uma das minhas recordações mais antigas? É a recordação mais antiga do meu pai. Ele a rejeitar-me. Devia de ter uns 4 anos, fui apanhado por uma tia com as calças em baixo com um outro primo. Ela foi contar ao meu pai, eu, sem saber que tinha feito algo de mal, corri atrás dela, receoso, sem saber ainda que mal tinha feito, apenas pensei que mais valia ir pedir desculpa, só para prevenir, não fosse dar ao meu pai para me dar uma chapada. Pedi-lhe desculpa e ele desviou-me a cabeça como se não estivesse presente na sala. Tentei subir-lhe ao colo, ainda a rogar perdão por todo e qualquer mal que pudesse ter cometido, sentei-me na perna dele, tentei abraçá-lo e ele empurrou-me ao chão. Caí de cú ao chão, não me magoei, pelo menos não fisicamente, mas este único acto magoou-me mais e teve mais impacto em mim do que qualquer chapada que ele me pudesse dar. Ele não percebia que era apenas uma criança? Eu não sabia que tinha feito mal, queria que me explicasse, que me desse uma chance, que… – PAFF- chapada. “Agora andas armado em maricas?” … Não se preocupem que tenho mais histórias, ui! Histórias do meu pai é coisa que não me falta, mas não vos vou chatear muito.

Engraçado como quem nos devia proteger dos males do mundo é quem mais mal praticou em nós, engraçado como uma pessoa pode ser tão auto-absorvida e egocêntrica que não repara no nosso sofrimento, nos danos que provoca, nem faz a mínima tentativa de comunicar connosco. Não bastava ter de chegar a casa da escola depois de servir de saco de porrada físico e emocional para tudo que era miúdo naquela merda de escola (sim, além disto tudo, o bom bullying foi uma constante na minha vida do 6ª ao 12º ano), como tinha de continuar a ser esmagado, apagado, reprimido e a mentir a mim mesmo à tua mão, querido paizinho.

O pior foi mesmo que, apesar de tudo, ainda assim tentava tudo para agradar-te. Todos os que me conhecem sabem que odeio futebol, no entanto, não só tentei entrar no Estrela da Amadora (o clube regional aqui da zona), como fui quase dois anos seguidos assistir a jogos do Benfica ao Estádio da Luz para tentar aproximar-me de ti. Dois anos de secas descomunais para não ver resultados nenhuns da tua parte. Eu podia ser um miúdo inteligente com notas um pouco acima da média, mas eu esforçava-me por ti. Eu estudava para não ter de te ouvir a berrar comigo, a insultar-me, menosprezar-me e fazer-me passar por um ser de inteligência equiparável a um jumento! Fí-lo para ouvir a merda de um elogio congratulatório! Mas nunca veio. Nunca o ouvi. Nunca o disseste… Entre outras coisas que nunca ouvi de ti, nunca disseste que me amavas. Nunca disseste que tinhas orgulho em mim; aliás, disseste-o uma vez, mas de uma maneira muito dissimulada e vaga. Era como se a minha inteligência te intimidasse! Menosprezavas-me e rebaixavas-me quando tirava más notas, não dizias nada quando tirava boas notas (era mais que o meu dever, pelos vistos), duvidavas que me saísse bem nos exames nacionais, achavas que não ia acabar o mestrado… Enfim.

Espero que tenhas a noção de que, graças aos teus dotes de pai, nunca vou sentir que sou verdadeiramente amado, que, independentemente do grupo a que pertencer, nunca vou sentir que pertenço, que relações amorosas passadas que tive terminaram porque não soube expressar como me sentia, porque era frio e distante, porque tive de me reprimir durante anos. Espero que saibas que as pessoas têm de estar constantemente a assegurar–me de que gostam de mim para me sentir amado, que me sinto como uma espécie de narrador de uma vida que não é a minha. Não sou o actor principal, secundário, não sou sequer a merda de um figurante, sou o filho da puta do narrador! É como me vejo, sinto, defino,! Sou um fantasma; existo sem existir, sou mas não existo. A minha marca no mundo é sentida como as efémeras palavras de um narrador, somem-se assim que são realizadas.  Foi graças a ti que, em tempos de pré-adolescência, sentia-me a derreter por dentro, que tinha um vulcão de fúria e raiva pronto para rebentar a cada momento com o portento de toda a minha frustração incessante e efervescente, todo o ódio latejante e ardente que continha em mim e me corroía por dentro, toda a vastidão oceânica de lágrimas solitárias que ficaram por ser choradas, as máscaras e as mentiras. TUDO! Tu fizeste-me sentir que tinha um monstro dentro de mim, porque eu era um monstro! Que não merecia o amor dos outros, muito menos o teu! Eu tive medo de libertar este monstro, de o deixar apoderar-se de mim, pois temia o que seria capaz de fazer, que a sua sede só seria saciada ao matar alguém. E nada me teria dado mais prazer do que ter libertado este monstro e atiçá-lo a ti, ver-te frente-a-frente com as consequências da tua “educação”. Mas não o fiz. Parece que sempre havia alguma decência dentro de mim, havia alguma luz, não era tudo trevas. Mas ter-me-ia dado tanto gozo mostrar-te como fodeste tudo de forma tão espectacular. Já agora, tens noção que a grande maioria dos criminosos têm passados parecidos ou piores que o meu? Parece que pais de merda são a razão por que existem homicidas, violadores e gente perturbada com tendências violentas. É como se pais de merda fossem a raiz de todo o mal. Começa em abuso e termina com a destruição de outras vidas. É de admirar eu ter conseguido aceitar a minha bissexualidade, o que não é de admirar é não conseguir baixar a guarda com quase nenhum homem devido à relação que tenho com o meu pai.

Aqui seria a parte em que gostaria de dizer que a minha mãe era das melhores pessoas da minha vida, a que me deu forças, era uma boa influência e era a luz da minha vida, mas não. Essa honra vai para a minha avó paterna. A minha mãe parecia o escravo que gostava da escravidão, parecia estar lá para reforçar o mandado do rei. Até recentes eventos, não me lembro de ser particularmente próximo dela. Só me lembro de ela ser complacente com a vontade do meu pai, mesmo que a vontade dele fosse contra a dela. A minha avó foi sim, o meu porto de abrigo. Com ela pude comunicar, questionar, crescer devidamente. Receber apoio, carinho e muito amor e ternura… E por todos os defeitos que ela tivesse, ela continuou a ser não só das melhores pessoas da minha vida – talvez até A melhor -, mas das melhores pessoas que alguma vez conheci. A minha avó olhava para mim quando me perguntava pelo meu (meio) dia, em vez de querer apenas um status update. Lembro-me de que ela tinha os olhos mais ternos que já vi em alguém, que tinha o sorriso mais largo e alegre que vira. Era capaz de iluminar uma sala, pensava eu. Ela era, a bem dizer, e pondo a coisas em termos mais poéticos, o meu Sol. Das poucas pessoas com quem me senti verdadeiramente e incondicionalmente amado.

Diz-se por aí que cada um nasce com a sua cruz. Bem, vendo as coisas dessa maneira, a solidão sempre foi algo que me acompanhou na vida. Como tendo a dizer a quem fica para ouvir, vejo a solidão como a minha própria sombra. E as sombras tendem a ficar maiores quanto mais próximos estivermos de uma fonte de luz. Talvez não seja de espantar que por causa da minha solidão tenha procurado algum consolo na companhia dos animais, dos cães em particular. E que, consequentemente, o amor pelos animais me tenha levado a querer tornar-me veterinário, ainda que este caminho não me tenha levado a lado nenhum se não à desilusão, ao fracasso e à vergonha. É curioso. Eu e um primo meu fomos criados pela nossa avó. A única diferença era que ao final do dia eu ia para casa, para os meus pais, ele ficava com a minha avó e ia para casa dos pais ao fim de semana. Nós, como primos, éramos birrentos. No entanto, via nele uma espécie de irmão, havia um vinculo de solidão que nos ligava. Um vínculo que não partilhei com mais ninguém.

No que toca a amizades e amores, parecia que nada calhava bem. Na escola as amizades eram apenas de conveniência, não havia ali companheirismo ou camaradagem, apenas usávamos a nossa companhia para passar o tempo até não nos voltarmos a ver. Na comunidade otaku, embora tenha tido um bom começo, o desfecho foi parecido. Amigos de longa data que julgava que não me abandonariam foram-se embora sem um adeus, outros que ficaram mal reparam que existo, fizeram novos amigos, pertencem a novos grupos, não têm tempo para os velhos conhecidos. No amor… Ha! Amor. Coisa mais agridoce e espinhosa. Peço desculpa pelo meu cinismo, é difícil para mim falar de amor sem isso ressurgir em mim um pouco de niilismo e amargura. Fui deixado sem aviso e sem saber se fui amado, usado como confidente e para consolar carências afectivas e largado para o lixo assim que deixei de ser considerado útil nessa função, fui deixado por não conseguir cumprir expectativas e por ter demasiado medo para comunicar os meus sentimentos… Por que será que tenho problemas de abandono, rejeição e em confiar nas pessoas? Por que será que tudo que mexo acaba por ruir e tornar-se em pó ao meu toque?

Eu mereço estar dentro de um poço.

Mas tenham lá calma, que queixei-me dos meus pais, mas o resto da família também não escapa. Na família do meu pai tudo parecia tão diferente do meu mundo, não sabia se podia pertencer ali, se me era sequer permitido estar ali. Depois fiquei um pouco por lá, a ver, a ouvir. Espreitei por detrás da cortina e vi que o que julgava ser calor era só fachada, um teatro encenado e complacente em que todos estavam cientes que estavam a representar… todos menos eu. E as micro-agressões… A merda que tive de aturar dos dois lados da família… “Olha-me este paneleiro nas notícias.”, “Ai, olha-me esta bicha!”, “Matava a minha filha se ela virasse gay.”, “Para conduzir assim só podia ser preto/ mulher”, “Hoje em dia só se vê paneleirada na televisão aos beijos, os miúdos hão-de virar gay a ver essa merda.”, etc. Tive primos que me achavam mimado porque os meus pais me davam brinquedos e jogos. Sim, tinha muitos brinquedos, tinha muita coisa. Muitas distracções. Mas não muito amor. Se ao menos soubessem que os meus pais compravam-me tantas coisas para atenuar a consciência pesada (Talvez? Quem sabe, eu não), se ao menos soubessem que os brinquedos e os jogos apenas me distraiam enquanto estava preso dentro da minha gaiola, que a “vida boa” que eu tinha era só fachada… se ao menos soubessem que, por mais bens materiais que tivesse, nunca tive o que realmente quis: deixar de me sentir sozinho, abandonado, desamparado.

Não quero perder o pouco tempo que me resta neste milésimo de segundo cósmico, em cima deste monte de rocha deformada a que chamamos de planeta, dentro deste poço sem fundo, acorrentado a estas âncoras, a usar máscaras de falsidade e medo enquanto sou forçado a engolir toda a merda que o mundo me enfia pela goela abaixo. CHEGA! BASTA! Estou farto. Não sei que mais posso fazer, não sei que mais posso dizer, não sei que mais posso… sentir? Sentir… Não sei o que sinto. Engano as minhas emoções e engano-me a mim. Apenas a fúria e a raiva permanecem… Às vezes dão origem a lágrimas de mágoa. Interrogo-me porquê. Talvez um dia venha a saber. Talvez um dia possa decifrar o que realmente sinto e saber quem sou. Talvez um dia possa a vir sentir-me humano.

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