12 recomendações de anime de 2016

Ora bem, já começámos 2017! Bom Ano Novo a todos!

Tenho de admitir, 2016 foi um ano sem igual… e não pelas melhores das razões. Mas gostaria de deixar de parte toda a azáfama e desastre caótico apropriado para prólogos de más obras distópicas de ficção científica que foi o ano passado para me concentrar, em parte, numa das poucas coisas boas que nos trouxe.

Por muito que acabe por discordar, acho que a maior parte dos fãs de anime chega ao fim de um ano sempre a achar que o ano “foi o mais fraco desde sei lá quando”. Eu contra-argumento e diria que o que aconteceu na realidade é que apenas não houve tantos êxitos por temporada como é comum, porque, depois, com tantos êxitos concentrados numa só temporada, acabamos com as outras temporadas muito diluídas e com coisas de muito pouco interesse para ver, comparativamente. Mas, este ano, gostei de como tivemos êxitos espalhados por todo o ano. Por isso, e no espírito de partilha, gostaria de fazer uma dúzia de recomendações de anime deste passado ano para os interessados e para aqueles que não viram tudo. E quero apenas relembrar que não vou contar com filmes anime e que a ordem dos animes é completamente aleatória e não tem importância, com a excepção da segunda metade da lista (logo verão porquê 😉 )

Antes de mais passo a apresentar as Menções Honrosas:

  •  JoJo Part 4 – Diamond is Unbreakable

É JoJo! Não tenho mais a dizer. Se ainda não viram ou tiveram alguma exposição ao presente dos deuses que é JoJo’s Bizarre Adventures têm de remediar isso neste preciso momento. Além de continuar e melhorar em muita coisa de onde partiram as últimas 3 temporadas (seja em termos de composição, personagens, poderes e um dos melhores vilões alguma vez concebidos), não há muito a acrescentar, e não fosse o facto de ser uma sequela, teria discutido o anime mais a fundo.

  • Assassination Classroom S2

Outra sequela de um anime de 2015. Como a metade que conclui o anime de Assassination Classroom, a meu ver, esta segunda temporada não faz nada de extraordinário que a primeira temporada já não tenha conseguido. Não que isso sirva em detrimento, pelo contrário, se há algo que possa chamar a ambas as temporadas é consistentes, tanto pela preocupação em dar atenção a todas as personagens e humanizá-las, tal como pela tentativa de evocar sentimentos da parte do espectador. Se bem que achei a recta final da segunda temporada um tanto apressada em termos de pacing. De resto, gostei e recomendo ambas as temporada que formam o anime.

  • Boku no Hero Academia

Boku no Hero Academia ou My Hero Academia, é um típico shounen desta temporada. Mas ao contrário de muitos shounens temos um protagonista cujas convicções, força de vontade e alma o propulsionam a realizar o seu sonho de ser um herói…. Eu disse ao contrário de muitos shounens? Quis dizer tal como todos os shounens, mas tem apenas um senão. Midoriya, AKA Deku, o nosso protagonista, é mais Shinji Hikari (minus all of the emo) do que Son Goku. Ele começa como alguém incerto, com problemas em falar com as pessoas, muito nervoso e fisicamente fraco para ser um herói – como se já não bastasse não ter nascido sem poderes num mundo em que 96% da população mundial nasce com algum tipo de poder. Mas é aí que reside o aspecto forte da série, a evolução do protagonista. Desde o início ficamos agarrados e no canto deste pequeno cabeça de arbusto a apoiá-lo, queremos que ele realize o seu sonho. E desejamos isso a esta criança porque ele tem o coração no lugar certo, porque, apesar de não ter os meios e de se esforçar tanto, ver este meia-leca conquistar o seu sonho enche-nos de prazer e uma estranha onda de satisfação. Desafio-vos a ver 3 episódios, e, se não sentirem estes sentimentos até ao 3º episódio, mudem para outra coisa.
Aliado a isto temos também um comentário/ paródia de tropos de heróis de banda desenhada e também do género shounen à mistura, o que cria uma experiência interessante se de ver.

  • Re:Zero

Oh boy, este estava mesmo indeciso se devia de incluir na lista de Menções Honrosas ou na lista em si, mas acabou por ficar aqui por umas quantas razões: 1) as opiniões quanto a Re:Zero são muito mistas, ou se gosta ou não se gosta; 2) De todos os animes deste passado ano, este foi o que causou a maior waifu war, e foi uma grande rebaldaria. 3) A meu ver, o anime só tem uma coisa interessante, o conceito.
Stop me if you’ve heard this before, um miúdo otaku/ recluso é transportado para um mundo de fantasia com magia, e elfos, e dragões e o raio qu’o parta. (Não se preocupem houve muito disto em 2016, como vão ver.)  But here’s the catch, ao ser transportado para este mundo, o tipo é amaldiçoado por uma bruxa e cada vez que ele morrer ele tem de repetir o mesmo dia, a partir de certo ponto. Se já viram Groundhog Day, ou se já jogaram alguma coisa no computador a utilizar um emulador com save states, então sabem perfeitamente do que estou a falar. O anime em si não é muito mau, mas tem problemas de pacing e muitas personagens não têm profundidade suficiente para justificar o muito tempo que dedicam a elas.
Ainda que o bundle de episódios entre o epi 14 ao 18 é bom, com todo o epi 15 a ser o melhor episódio de todo o anime. Se gostarem de fantasia com um twist macabro, pode ser que gostem.

Ora bem, vamos lá à lista de recomendações propriamente dita. E antes que venham com coisas de “Onde está o Erased?”; FUCK YOU, that’s where it is! *Ahem*  E começamos com:

ReLife

ReLife é um anime adaptado da manga do mesmo nome, escrita e ilustrada por Yayoiso. Este slice of life conta a história de Arata Kaizaki, um homem de 27 anos, que, devido a um trauma, às pressões laborais e a frieza do mundo das grandes companhias, permanece desempregado após abandonar o último emprego. Como consequência, ele acaba por se tornar mais recluso e misantropo relativamente ao mundo que o rodeia. Nisto, um dia, um homem misterioso chamado de Ryō Yoake oferece-lhe uma oportunidade de emprego, a qual consiste em ele tornar-se numa cobaia de testes para uma empresa chamada ReLife. A experiência implica que ele será rejuvenescido 10 anos, mas, em contrapartida, terá de se ingressar de novo no liceu e viver a sua vida como um estudante normal. Aparentemente, o objectivo da experiência é dar às pessoas uma oportunidade de viver a sua juventude mais uma vez e, no processo, corrigir o que aconteceu de mal na vida da pessoa, servindo como uma forma de terapia e de reabilitação.

Desde o começo deste anime o aspecto que mais me chamou à atenção foi precisamente o realismo na reacções e das relações das personagens. Temos um homem de 27 anos no corpo de um miúdo de 17, e é hilariante ver como este não consegue acompanhar a matéria nas aulas e como chumba todos os testes marcados, ao ponto que ele passar o ano lectivo todo a fazer exames de recuperação. Gostei como este anime encarou as situações típicas de adolescentes pelos olhos de um adulto, de como essa perspectiva mais madura é tão diferente e como a resolução de conflitos acaba por se realizar de uma forma tão pragmática ao mesmo tempo que emocional. Aliás, o protagonista acaba por recorrer a extremos para que certos erros não ocorressem ou fossem rectificados, porque ele, melhor que os miúdos, conhecia o peso das acções tomadas e o arrependimento com que teriam de viver caso se concretizassem.

Tendo eu a mesma idade do protagonista, e, uma vez que também tive os meus “acasos” e “falhanços”, senti que muitos momentos foram comoventes, pois tocaram em feridas antigas e recentes, e, de certa forma, até que foi terapêutico. É o tipo de anime que nos convida a sermos introspectivos, quase que a acompanhar o protagonista a reviver  memórias  e momentos de adolescência com o discernimento adulto da nossa idade actual, apesar das pequenas instâncias de humor surgirem na altura certa para injectar alguma leviandade ao drama não-muito-intenso.

Com uma atmosfera serena, personagens realistas e adoráveis, mas também com dramas um tanto cliché acho que este foi o slice of life de Verão que me soube melhor.

Oshiete Galko-chan

Em anos recentes têm aparecido novos formatos de anime, em destaque saliento as séries que 5-7 minutos. Tenho vindo a gostar e apreciar muito animes sob este formato, uma vez que não têm outra opção senão cortar a gordura toda, eliminar todo o fluff desnecessário e irem direitos ao assunto e ao que querem mostrar. Oshiete Galko-Chan é um destes animes, e foi uma óptima surpresa para começar o ano.

O anime é sobre três raparigas de uma classe de liceu: Galko, Otako e Ojou. E os episódios revolvem à volta do seu dia-a-dia, tanto dentro e fora das aulas. Sim, é mais um slice of life de comédia, mas em contrapartida com muitos outros animes do mesmo género, devido ao formato curto de 5-7 minutos, este anime é infinitamente melhor digerível.

Dos muitos aspectos positivos do anime posso realçar as interacções naturais e a caracterização das personagens. Ora, como é provável que tenham reparado, os nomes das personagens são mais uma alcunha dada às protagonistas devido à sua aparência; Galko tem a aparência de uma Gyaru, Otako é uma rapariga Otaku e Ojou é uma rapariga de boas famílias muito prim and proper, e isto é também registado para todas as personagens da turma destas três. Nisto, o anime gosta de subverter e de brincar com estereótipos. A Galko é estranhamente um pouco geek-ish no que toca a livros, mangas, filmes etc e tímida no que toca a assuntos… erm… badalhocos xD, a Otako por vezes mostra-se o elemento mais emocionalmente frágil do grupo e a Oujo é – talvez não tão estranhamente- a mais pervertida e iniciadora de conversas indecentes, ainda que o faça de uma forma inocente.

Por falar em conversas, muitos dos episódios centram-se nas conversas destas moças. Conversas essas que são destacadas de forma completamente natural e com a mesma maturidade esperada de adolescentes – I swear, há um episódio em que elas passam o tempo inteiro a falar do tamanho da aréola mamária ou se as mamas grandes flutuam dentro de água. E é daí que vem o prazer da série, subverte, mas, sem grandes subtilezas, brinca com estereótipos sem nunca chegar ao ponto de ser trocista ou mostrar  preconceito – para isso temos a Nikuko, que não só é a personagem mais… vá, volumosa, como é a rapariga mais atlética e rápida da turma. São pequenas coisas como estas que fazem Oshiete Galko-Chan um autêntico prazer de ver e o formato de curto consumo é um factor que ajuda na rewatchability deste anime subvalorizado.

Hai to Gensou no Grimgar

Mais um anime em que os protagonistas vão misteriosamente viver para um mundo de fantasia *sigh*…. Mas, ao contrário de tantos outros, este anime envolve um grupo de protagonistas que têm de se tornar activos neste mundo para sobreviverem. E esse foi o aspecto mais cativante do anime: sobrevivência.

Bem, começando do início. Este anime é um produto feito para promover um jogo RPG de telemóvel com o mesmo nome, e começa com um grupo de jovens do mundo real a serem transportados para o mundo de fantasia sem grandes explicações ou motivos, e estes perdem também qualquer memória do mundo de onde vieram. Por mais cliché e formuláico que esta premissa pareça, o resto do anime mais que contra-balança este franzir inicial.

O objectivo do jogo é sobreviver, e a morte é algo bem real. É um tanto ambíguo se  este mundo de fantasia é virtual ou não, pois a morte neste mundo é algo retratado de uma forma muito real e muito sóbria… as in, permadeath real. Todo o o anime tem gravitas, seja com as personagens, a sua vida/ luta diária, a luta para se manterem à tona e puderem comprar nem que seja um pão para sobreviverem mais um dia, e, em especial, as relações entre personagens, o peso e importância que estas têm neste anime.  Gostei particularmente deste aspecto explorado, e, mais, a animação nos momentos de acção é excelente pois nota-se o peso de cada movimento. É normal em muitas séries vermos personagens a movimentarem-se como se as espadas tivessem o peso de pequenos galhos, mas aqui não. Cada movimento é lento, demorado e com uma trajectória prevista, é um detalhe de realismo que apreciei bastante ao invés de termos duas personagens à bulha que nem dois bonecos dos Power Rangers.

Mas, como é óbvio, nem tudo é bom neste anime. Há demasiados shots de fan-service, chegando ao ponto de ser irritante. O pacing é capaz de ser o aspecto que muita gente critica o anime, pois este é lento. Não lento o suficiente para me pôr a  dormir, mas lento para este género de anime. O uso de cores palete é também algo que achei agradável, mas que, novamente, muita gente achou estranho ou que tirava vida ao anime. E penso que há um certo evento que ocorre cujo impacto deveria ter sido melhor explorado com mais um ou dois episódios nem que fosse somente pelo realismo do pesar e transtorno emocional que trouxe.

A meu ver, virtual ou não, fantástico ou não, Grimgar of Fantasy and Ash é dos poucos animes de fantasia com gravitas e impacto emocional cujo poder manifesto no seu imaginário é realmente sentido e exposto de uma forma humana (ainda que um pouco apressada.) – e não necessariamente somente pelo espectador.

Amaama to Inazuma

É hora de coisas leves e fofas para alegrar 8DDD ❤

Amaama to Inazuma, ou Sweetness and Lightning, fez furor pelo seu uso de fofura, numa tentativa de fazer os otakus japoneses largarem os vícios e aumentar a taxa de natalidade do Japão (Maybe, I dunno. É plausível xD) Sweetness and Lightning não se destacou exactamente por ter composição extraordinária, uma banda sonora soberba ou animação de qualidade divina (believe me, I’m getting to it). Ao invés, Sweetness and Lightning destaca-se por ser uma história efectivamente simples mas bem contada, com montes de comida e fofura à mistura.

É a simples história de um professor de liceu, recentemente enviuvado, com uma filha de quatro anos e o dia-a-dia dos dois. O anime usa a culinária como uma ferramenta de aproximação entre pai e filha, mas é também introduzida para alterar, ou, de certa forma, reintroduzir uma espécie de dinâmica familiar tanto entre pai e filha, tal como com uma das alunas deste.

Como é sugerido pelo título, é um anime muito doce. Não há grandes confusões, não há grandes dramas (tirando os dramas proporcionados por qualquer criança de quatro anos), não há grandes momentos de amargura ou tumulto emocional. É apenas um anime de um pai a tentar fazer o seu melhor para cuidar da filha, ao mesmo tempo que lida com a perda da sua mulher e aprende a cozinhar. Aliás, o pai não é o único a lidar com a perda da conjugue, a filha também tem um dos momentos mais comoventes e calorosos deste ano ao interiorizar a perda da mãe. Mas isso é algo que não quero estragar a ninguém, por isso, recomendo que vejam para se sentirem igualmente comovidos.

Se querem algo doce e facilmente digerível, Sweetness and Lightning é para vocês.

91 Days

Se o logótipo não é suficiente para vos despertar algum interesse, uma vez que referencia directamente dois dos filmes clássicos mais estimados pelo público americano (The Godfather e Scarface), então fiquem a saber apenas isto: América. Lei seca. Máfia.

Só de saber isto fiquei imediatamente curioso para descobrir se 91 Days seria mais um enorme sucesso como Baccano, pois a acção da história acontece numa das alturas que mais desperta a imaginação do quotidiano Norte-Americano, a década de 1920. Porém, na sua essência, 91 Days é uma história de vingança muito à veia de filmes de gansters mafiosos. Não pretendo spoilar muito, pois acho que quanto menos se souber sobre este anime melhor, mas convém que ao menos diga alguma coisa para vos convencer a ver, não é verdade?

A história segue Angelo Lagusa muitos anos após a morte da família deste às mãos da Família Vanetti, quando, certo dia, ele recebe uma carta anónima com uma dica que o vai motivar a finalmente exercer a vingança que por tanto tempo desejou. O grande motivo para ver este anime é a intriga, isto, pois, vemos que Angelo é alguém que vive preso ao passado, que se sente desnorteado no presente e que, antes de receber a carta anónima, deambulava pela vida sem direcção ou sentido (algo que a excelente OP ilustra estupendamente), até que alguém voltou a despertar o fogo da vingança dentro dele. Mas não fica por aí, é na sua busca por vingança que vemos, através de pequenos gestos e da linguagem corporal, que Angelo começa a pôr em causa o seu rancor e ódio fervosos, quando passa a conhecer Nero Vanetti, o filho do chefe da Família Vanetti que matou a família de Angelo.

Embora aprecie a intriga, estaria a mentir se os momentos de acção também não fossem merecedores de menção. A tensão é quase palpável nesses momentos; desde a tiroteios em armazéns, a planos de assassinato, a transacções ilegais de álcool, o clima opressivo é imediatamente notório e tangível, como em muitos filmes de mafiosos – algo que o anime acaba por inadvertidamente emprestar/ copiar. Aliás, tal como os filmes de mafiosos, qualquer pessoa pode morrer. Amigo, inimigo, não interessa. Esta in/previsibilidade é algo que faz mesmo assentar o sentimento de o anime parecer uma versão diluída de The Godfather. Até porque há uma cena igualmente perturbadora, capaz de rivalizar com a memorável cena da cabeça do cavalo na cama desse filme.

Se apreciam filmes de gansters mafiosos, acreditem, esta vai ser uma boa experiência.

Uchuu Patrol Luluco

Que posso dizer sobre Space Patrol Luluco? Além de que é dos animes mais hiperativos, estranhos, over-the-top, absurdos e inovadores que alguma vez vi (e digo isto tudo no bom sentido). Luluco representa uma explosão desenfreada de criatividade com quantidades incalculáveis de cameos e detalhes referenciais a todo o catálogo de criações do estúdio Trigger (sim, até mesmo Sex and Violence with Machspeed). Luluco foi uma incrível lufada de ar fresco com a escalada de enredo épico que rivaliza até com grandes gigantes de 25 a 50 episódios e com animes queridos da indústria (see Gurren Laggan for scaling of epicness), e fê-lo em 3/4 temporadas compostas de 13 episódios com sete minutos cada, e num ritmo tão frenético que quando cheguei ao fim, parecia que tinha feito uma maratona de Senhor dos Anéis.

O humor e comédia é tão alegre, despreocupado e ridículo que chega a ser tão parvo como cativante. Tento revelar apenas a informação mais básica sem spoilar muito porque não quero expor tudo, quero apenas dar um gostinho do que podem esperar, por mais vago que seja, mas com este anime não quero revelar NADA! Têm de ser vocês a ver para determinar se vão gostar, eu apenas posso reafirmar a minha opinião, e talvez, espero, isso seja suficiente para vos cativar. Tudo isto para dizer que Luluco é pura loucura over-the-top que põe em ruínas quaisquer concepções de convencionalismo formuladas por esta indústria, pois, ora vejamos; Luluco começa como uma história de inocência e primeiro amor, evolve para uma narrativa de transição e de maturidade, para cameos, homenagens e GREAT JUSTICE!, é uma história narrativamente coesa e sã, mas com uma apresentação insana e caótica.

Tendo em conta todo o conteúdo que conseguiram compactar neste curto anime, Space Patrol Luluco é um feito dos tempos modernos, tem de ser visto para se acreditar.

Flip Flappers

De todos os animes aqui presentes, Flip Flappers é o que me vai dar mais problemas discutir porque, as of the time I’m writting this, ainda não o acabei de ver todo. No entanto, isso não me impede de falar sobre as qualidades soberbas deste anime.

A história de Flip Flappers não oferece nada de por aí além, de início, pelo menos. A história segue duas raparigas, Cocona e Papika, que se conhecem aleatoriamente um certo dia, e estas terão de embarcar em grandes e maravilhosas aventuras dentro de mundos que pertencem a uma realidade paralela chamada Pure Illusion. A Cocona é a rapariga esperta, reservada, tímida e incerta, enquanto que a Papika é o raio de sol ambulante, a pilha duracel que nunca se gasta, o Yang para o Ying da Cocona. E as duas vão-se tornar mais próximas enquanto batalham novos perigos e têm aventuras nestes mundos paralelos. Ah, e também ficamos com mais uma adição na colectânea de protagonistas femininas que quase se beijam (sim, estou a roubar uma piada do Gigguk, fucking sue me!)

Primeiro de tudo, gostaria de salientar que este anime faz bom uso de uma mesclagem de múltiplos géneros que acabam por apenas ser representados em um episódio, por isso as coisas nunca ficam demasiado estagnadas, repetitivas e/ou previsíveis, se bem que o género Magical Girl é predominante na integra do anime. Em adição, por norma, a representação de cada género que nos é apresentado ajuda na reprodução de um imaginário tão rico e vivo como é colorido. O imaginário usado é algo que revitaliza ideias já não tão originais, trouxe uma lufada de ar fresco, embora muitos dos cenários apresentados não serem nada de novo (for friks sake, há um episódio passado num mundo inspirado por Mad Max, uma história de fantasmas e até um mundo imaginário dentro de um mundo imaginário).

Contudo, Flip Flappers brilha verdadeiramente no seu uso de animação fluída e consistente, ganhando a fama por alguns círculos como sakuga: the anime não só pela consistência e qualidade da animação, mas por esta ser tão frequente – algo que, apesar da consistência, penso que a entrada a seguir à próxima faz muito melhor (Sakuga, já agora, para os leigos, é um termo usado para se fazer menção àqueles momentos de alta qualidade de animação). Em adição ao que já foi mencionado, o anime realmente faz excelente uso de cor vivas e claras para se destacar, aliás, visualmente, é dos animes mais cativantes, não simplesmente pelo uso de cor mas porque a edição dos efeito visuais é tão berrante que é impossível estes não chamarem à atenção. Em vez de nos tentar seduzir com cores bonitas e animação estonteante, Flip Flappers  acaba quase como que agarrar-nos pelos olhos e a forçar-nos a ver o que tem para nos mostrar. Em casos normais isto seria mau, mas aqui acaba por ser bastante adequado e espectacular. Igualmente elogio o design consistente e interessante das personagens, tanto no mundo real como quando estas são levadas para os muitos mundos de Pure Illusion.

Os únicos pontos negativos que tenho a criticar (do que vi) é que, tal como a maioria dos animes de Magical Girls, demasiadas coisas giram à volta das cenas estereotipadas normalmente associadas a este género; amizade, imaginação, sexualização de meninas durante sequências de transformação… enfim. Aliado a isto está também o que, para mim, aparenta ser uma fraca caracterização pós-introdução das protagonistas, simplesmente não são desenvolvidas tanto quanto deviam.

Flip Flappers prova que não é preciso reinventar a roda para se fazer algo inovador e obter experiências nova e frescas.

Yuri on Ice!!!

Não é exagero nenhum dizer que Yuri on Ice foi o anime com mais sucesso este ano, não só fartou-se de ganhar prémios na primeira gala virtual de prémios anime da Crunchyroll (undeservingly so, for many a category), como muito antes de estrear já tinha grandes números de fãs a apoiar a produção do mesmo. For fuck’s sake, o raio do Tumblr foi abaixo no climax do anime! YURI ON ICE MANDOU O TUMBLR ABAIXO! Deixem isso assentar na vossa mente.

Basta apenas visualizar a OP deste anime para termos uma noção do que trata, pois, este começa com uma premissa arrojada: veio para fazer história. Não sei se fazer um anime de desporto (patinagem artística) com tons muito transparente de homo-romantismo e manifestações passionais quanto ao desporto e às relações amorosas (novamente, homossexuais) é algo, diga-se, revolucionário no mundo do anime *cough* Free *cough*, mas certamente e sem dúvida que foi como que uma lufada de ar fresco para muitos fãs.

Para mim, Yuri on Ice certamente tem das animações mais fluídas e belas que já vi desde há muito tempo. Isto, sem fazer menção da diversificada e incrível banda sonora que me cativou quase tanto como as performances dos patinadores. Já para não falar que as personagens não só parecem e comportam-se como pessoas reais – ou, pelo menos, tão reais quanto uma representação animada permite. E não só, são também desenvolvidas e caracterizadas de uma maneira igualmente realista, ainda que muitas personagens secundárias não tenham tido tempo de antena suficiente para sequer nos lembrarmos dos seus nomes. Um óptimo exemplo disso é um dos melhores momentos do anime, que foi, a meu ver, quando um dos atletas mais confiantes e mais aptos do elenco, que parecia destinado a vencer, sucumbe à pressão da competição em plena actuação. Foi dos momentos mais bem escritos de todo o anime! 

No entanto, tenho problemas com a exploração das relações exibidas no anime. Isto, porque, não são nada realistas. Vão-me dizer que um ex-campeão de patinagem artística RUSSO não sofreu quaisquer tipo de consequências por não só revelar que é homossexual, como também ter demonstrações públicas de afecto?  Então da Rússia, que é um país, tão gay-friendly, que só condena à prisão (e à morte, em certos casos) quem se declara publicamente homossexual. Mas, pronto, neste aspecto é algo mais referente à problematização da glamorização das relações homo-românticas em anime no geral, do que um problema deste anime específico.

E, claro, não se pode falar de Yuri on Ice sem se falar nos Yuris e no Viktor. Os três contrabalançam-se extremamente bem e acabam por se desenvolver mais a fundo quando interagem, embora isso seja muito mais evidente na relação entre Yuri e Viktor. E tenho e admitir que a relação deles é incrivelmente fofa e bem representada, com a tridimensionalidade esperada de uma relação entre ex-competidores tornada em uma relação entre treinador e aluno e amantes. Em momento algum não acreditei que se amavam ou que o que sentiam um pelo outro não era genuíno, foi, muito sinceramente, das relações mais bem retratadas e polarizadoras que vi o ano inteiro! E adorei cada instante em que estiveram no ecrã!

Se isto não é suficiente para vos convencer, então, ao menos que fique aqui registado que Yuri on Ice é o primeiro anime com uma relação homo-romântica/ Yaoi/ Shounen-Ai/ Wtv que genuinamente não só gostei, como devorei tão vorazmente como o pessoal que mandou o Tumblr abaixo.

Mob Psycho 100

E contra partida com a entrada anterior, para muitos este foi o anime mais querido do ano. Eu nem sei por onde começar com este anime. MP100 veio da mesma mente brilhante que fez One Hype Man, erm… One Thrust Man, erm… One Bang Man, ONE PUNCH MAN, porra! Porém, enquanto que em OPM ONE (o nick do autor) brinca e subverte os estereótipos e os tropos associados com animes/filmes/banda desenhada de super-heróis, em Mob Psycho 100, ONE brinca e subverte todo o género de shounen na sua grande vastidão e integra.

Que quero dizer com isto? Pois, bem, temos o nosso herói principal, Kageyama Shigeo AKA Mob, que nasceu com poderes telequinéticos estupidamente poderosos – tipo, God tier, mate – mas, ao contrário de um protagonista normal de shounen, este  não tem qualquer desejo em ser mais forte mentalmente, nem de ser o melhor ou de governar o mundo com os seus poderes. Aliás, Mob é um herói pacifista e não convencional do género a que pertence; ele tenta sempre resolver os conflitos conversando, recorrendo à violência apenas em casos de auto-defesa ou em perigo de morte (dele ou de terceiros). O maior interesse dele é ser normal… Sim, normal, average joe, pãozinho sem sal, mas quer alcançar isso ao exercitar o corpo, pois, apesar do prodigioso poder da sua mente, o corpo dele é bastante debilitado. Logo, ele procura o auto-aperfeiçoamento do seu corpo para tentar integrar-se melhor na sociedade, ao mesmo tempo que recusa usar os seus poderes para ganho próprio.

Esse é outro ponto de interesse, todos os grandes vilões têm poderes psiquícos muito fortes, dois deles até chegam a dar uma grande abada ao Mob, mas todos querem governar a sociedade, estar acima das pessoas “normais” e pisar o zé povinho na cabeça. Os grandes momentos de comédia vêm quando Mob, ou melhor, Mob em conjunto com o seu mentor, o aldrabão profissional, erm… quer dizer, exorcista psíquico profissional, Reigen, acabam por completamente ridicularizar e humilhar os vilões e a sua lógica retorcida com puro senso-comum. Este tipo de subversão do género e de tropos é precisamente o que faz para mim com que MP100 seja muito melhor que OPM. É demasiado bem escrito e cómico para me fazer pensar que One Trick Pony… (DAMMIT!) que OPM é melhor.

Em adição a isto tudo, tenho de dizer que a animação é de derreter os olhos do tão boa que é. Para muitos este foi definitivamente o factor decisivo que usaram para determinar o valor deste anime, e quanto a isso só tenho a dizer que, enquanto a animação de Flip Flappers é mais consistente em termos de longevidade, Mob Psycho 100 tem animação bastante standard com momentos explosivos e de alta octana de animação surreal e fora deste mundo que só pode ser equiparada a cocaína para os olhos. É definitivamente um dos aspectos mais apelativos deste anime, especialmente quando as lutas épicas surgem. Minha rica virgem Maria, estas cenas de acção são mesmo do caraças!

3-Gatsu no Lion

De todos os animes deste anos, este foi aquele que corria para ver um novo episódio, ansiava a semana inteira pela continuação (still do =P). “E que tem isto de tão especial?”- perguntam vocês.

Kiriyama Rei, de 17 anos, é o jogador profissional de shogi mais novo a conseguir entrar para a federação e jogar profissionalmente a tempo inteiro, porém, todo este sucesso adveio de um passado trágico, relações fracassadas, um presente assombrado pelo passado, emoções reprimidas e uma mentira que cerrou o seu destino. No entanto, Rei encontra uma espécie de porto de abrigo com a família Kawamoto: Akari, Hinata e Momo; as quais o tratam com o mesmo calor e gentileza que um familiar, e aos poucos curam mutuamente as suas tristezas. Para aqueles que só apanharam a parte de shogi e que já estão a pensar que isto é uma versão shogi de Hikaru no Go, pois, desenganem-se. O shogi é apenas uma aspecto secundário à história, e nem é preciso saber como se joga para apreciar os breves momentos em que a atenção muda para uma partida. Quase que a prever isto, até foi incorporado num dos episódios um guia de fácil compreensão para o shogi (Não um “Shogi for Dummies“, é mais um “Shogi for Kids“). Já para não falar que a 1ª OP é espectacular e pôs-me a chorar só pela letra, e este anime tem um cuteness factor em certas cenas com a família Kawamoto simplesmente demasiado adorável para ser ignorado.

Como se não bastasse 3-Gatsu no Lion ser animado pelo estúdio de animação Shaft, o qual trás uma enorme contribuição para a direcção artística do anime- e é também uma grande razão para ver o anime –,o grande chamariz, o aspecto pelo qual de facto devem ver este anime é pelas personagens e como o drama resultante de certas interacções os faz crescer como pessoas. Aliado à representação de Rei está também o tópico de saúde mental, de transtornos emocionais, de depressão, isolamento e o que isto faz a uma pessoa. A razão por que eu corria para ver este anime é porque eu entendo essas coisas melhor que ninguém. Sofro dos mesmos problemas que a personagem principal, por isso foi uma experiência inteiramente nova conseguir identificar-me com um personagem devido à sua dor emocional e psicológica, em vez da sua personalidade ou passado. Adoro a representação das consequências da saúde mental debilitada da personagem principal, uma vez que é tão familiar para mim, e, aposto, que para muitos outros também.

No seu âmago, 3-Gatsu no Lion é uma história sobre esperança, sobre as relações entre as pessoas, sobre, por mais fundo que possamos estar num poço,  podemos sempre pedir a uma mão amiga para nos ajudar e reconfortar. É uma narrativa reconfortante que demonstra, lentamente, que, mesmo à face da adversidade, da solidão e da amargura, não precisamos-nos definir pelas coisas que nos trazem dor, pelos nossos traumas, choques, arrependimentos ou relações passadas.

Tudo é passageiro, nada é permanente.

KonoSuba

Acho que para mim é mais fácil de falar de KonoSuba se falar da história e das personagens primeiro, porque, muito sinceramente, só por estes dois aspectos já vale mais que a pena ver este fenomenal anime de comédia

Imaginem o que é morrerem, chegarem ao Além, falarmos com o S. Pedro (ou uma versão(?) dele), pensar que morremos a salvar alguém de ser atropelado, quando afinal a pessoa em causa nunca esteve em perigo, morremos de susto porque mal-interpretámos a situação, e, além disso tudo, quando deram a notícia da morte à nossa família eles mijaram-se a rir das circunstâncias da nossa morte. Isto, mês amiges, são os 5 minutos iniciais de KonoSuba (minus the spoilers). E este é o destino inicial do nosso protagonista, Kazuma *ouve-se algures: Hai, Kazuma desu*. Estando ele no Além e tendo ele morrido uma morte tão…. patética, a “deusa” que o recebeu, a Aqua, dá-lhe a escolher um mundo de fantasia onde pode viver aventuras de jogos de RPG (eu avisei que ia haver abundância disto aqui), e, em adição, oferece-lhe um item que o ajudará na sua nova vida. Contudo, após uma recepção rude e desagradável,  ele decide vingar-se de Aqua ao escolhê-la para o acompanhar neste novo mundo… which she does, mas só porque é obrigada pelos deuses acima dela e só o faz depois de muito choro e birra. E assim começa a nossa história.

Isto foi só o início porque ainda há muito mais para verem. Desde uma feiticeira que sabe usar o feitiço mágico mais poderoso de sempre mas só sabe usar esse feitiço e apenas pode usá-lo uma vez por dia porque depois fica incapacitada, a uma cavaleira com grandes stats de força mas com 0 pontaria e que é uma pervertida masoquista que se baba com cenários de humilhação S&M, à Aqua não aprender nada além de habilidades para entreter pessoas mas ser quase sempre a grande salvadora do dia e a coisa mais OP deste lado de um Explosion da Megumin… *respira* A diversão nunca para com este anime. Ou melhor, para, depois de 10 episódios.

Esta é a meu ver o melhor anime de comédia do ano (FUCKING FIGHT ME, SAKAMOTO FANS!) simplesmente pela subversão de tropos e estereótipos do género “transportado para um mundo de fantasia” e pela caracterização das personagens. As situações são sempre hilariantes e resultam igualmente em finais ainda mais ridículos e engraçados. Nota-se desde à animação até ao argumento que as pessoas que participaram na criação deste anime adoraram cada segundo da sua produção, tal como muitos de nós adorámos vê-lo. É uma brincadeira constante que nunca perdeu vapor e cujo único problema, a meu ver, foi ter tido uma esperança de vida tão curta, por falta de visão dos directores.

Agora que a Season 2 acabou de estrear, esta é a altura perfeita para começarem a ver KonoSuba se ainda não começaram.

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu

E aqui chegámos. O fim da lista, la crème de la crème, cream of the crop. A todos que aguentaram este tamanho testamento, a vocês só tenho a dizer: “Porra, vocês devem ser malucos para terem lido isto tudo! Ou isso ou estavam aborrecidos.” Mas, seriamente, obrigado a quem aguentou tamanha monstruosidade de texto que expressa o meu agrado fervoso quanto à transmissão de desenhos animados chineses durante o ano de 2016.

Aqui temos, o anime do ano de 2016: Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu. Irónico este ser o anime do ano, uma vez que foi dos primeiros a ser transmitido na temporada de Inverno. Gostam de drama? Tragédias pessoais? Artes representativas? Relações interpessoais que se desenvolvem por anos com conclusões dolorosas? Este é o anime para vocês. Rakugo, ou em Inglês, Showa and Genroku Era Lover’s Suicide Through Rakugo, é altamente recomendado, primariamente, pelo desempenho dos dobradores. Nunca vi uma performance ser tão intrigante e intrinsecamente hipnotizante como neste anime. Em particular, major props a Ishida Akira (dobrador de Kaworu Nagisa de Evangelion) por fazer um trabalho excepcional nos primeiros episódios, desde um Yakumo velho, mestre na sua arte e esgotado, a um principiante desajeitado e ainda em busca da sua maneira de fazer a sua arte.

Sim, leram bem. Rakugo começa num espaço temporal futuro no primeiro episódio, e o resto do anime é um flashback dos tempos de infância de Yakumo, como conheceu Sukeroku, até ao presente. E acreditem, saber inicialmente o estado do presente enquanto se vê a trama do passado a se desenrolar em nada constringe ou prejudica a totalidade da história. Aliás, apenas acaba por tornar as coisas mais trágicas e interessantes no fim, especialmente para a alma saturada e penosa de Yakumo.

Mas, o que é Rakugo? Rakugo é uma arte representativa maioritariamente verbal, uma mistura de teatro com stand-up e narração de histórias, em que o contador acaba por interpretar várias personagens e fá-lo ao mudar a entoação de voz, a linguagem corporal e através do uso minimalista de alguns adereços (normalmente, apenas um leque ou a própria roupa). Para terem uma autêntica noção do que Rakugo pode realmente atingir, recomendo que vejam a representação de Yakumo no 1º episódio, e se se deixarem ser cativados como eu fui, entenderão quando digo que este anime é metade arte e metade drama histórico. Histórico porque o presente da história passa-se em meados dos anos 70 e o passado começa no período pré-2ª Guerra Mundial.

Em vez de nos apresentar uma narrativa sobre a ascensão de dois amigos pelo mundo artístico do Rakugo, é-nos dada uma narrativa centrada nas personagens e na ligação que partilham, seja esta relação amizade, rivalidade ou irmandade. O uso do Rakugo é apenas um mecanismo que ajuda a desenvolver e desenrolar a trama, ainda que permaneça um dos aspectos secundários mais interessantes de ver. Por coincidência – ou não- a natureza do anime é a mesma da arte do Rakugo: a subtileza. Em nenhuma altura há grandes exageros ou hipérboles visuais para realçar feições faciais, movimentos corporais ou até mesmo emoções vividas.

Sendo uma narrativa que parte desde a infância, que deambula pela adolescência e culmina na idade adulta, seria de esperar que o ritmo fosse acelerado, mas tal não acontece, pelo menos não de início. Rakugo não tem problemas em deixar-se ir com calma quando é preciso e de dar grandes saltos temporais quando exigido. Como tal, é natural, também, que seja um anime repleto de pequenos detalhes, tais como as interacções diárias dos protagonistas, o tempo dedicado a estabelecer e a mostrar o espaço temporal em que estes vivem, as dificuldades desses mesmos tempos, e, especialmente, as dificuldades daqueles associados às artes num período de desenvolvimento tecnológico e económico do Japão pós-Guerra.

Continuando a falar de subtileza, foi algo que apreciei muito do estúdio de animação DEEN, uma vez que a maior parte dos shots consistem de personagens a falar, puderam dar mais atenção a outros detalhes para realçarem as actuações de Rakugo. Aspectos como fluidez de movimentos, atenção a postura corporal, expressões faciais, composição de imagem foram todos estudados a fundo e minuciosamente trabalhados para estabelecer a apresentação subtil que já mencionei. Em adição, acrescento que sou da opinião de que o design adoptado foi habilmente escolhido para complementar o detalhe de animação e dos fundos desenhados.

Outro aspecto que merece menção é a banda sonora composta de melodias de Jazz e Blues, especialmente a OP cantada pela eternamente talentosa Megumi Hayashibara. Inicialmente, estas peças de Jazz pareciam estabelecer um tom dissonante com o cenário (pelo menos num contexto histórico), mas acabei por rapidamente mudar de opinião quando notei que a música era usada para estabelecer paralelos entre o ritmo e o pacing das cenas, tal como foi utilizado pianos e violino para acentuar o dramatismo de certas cenas e também para estabelecer uma atmosfera adequada ao estado emocional pretendido.

No geral, Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu é uma produção absolutamente fenomenal com uma narrativa e personagens cativantes e trágicas. A falta de atenção que este anime recebeu no ano passado foi criminoso. Uma vez que o anime pode ser apreciado pela sensibilidade artística tanto como pelo drama ou a interacção interpessoal, é apenas mais um dos méritos que possui. Mas, claro, este pode ter sido o factor principal por que tantos não viram ou desistiram do anime, as grandes massas não sabem apreciar as artes representativas e muitos acharam as actuações “aborrecidas” ou “secantes”. Seja como for, não me vejo dissuadido na minha opinião nem nos elogios que para aqui regurgitei. Só pela narrativa trágica este anime mais que vale a pena o vosso tempo, e uma vez que a segunda temporada começou ainda há dias, quem perdeu a 1ª temporada tem agora razões para assistir e confirmar – ou não – se os meus elogios têm alguma subsistência.

Se têm uma petulância para o teatral e o drama, aconselho esta tragédia histórica para o vosso prazer.

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